Dever, querer ou poder amamentar?

Esta frase foi retirada do livro “Amamentação e o design da mamadeira” da autora Cristine Nogueira Nunes e merece uma reflexão.


O nascimento do bebê é um momento delicado para todos, independente da classe social ou cultural e da forma como as pessoas o encaram, uma coisa é certa, é uma mudança brusca da vida e uma responsabilidade que nasce.


“A espécie humana é biologicamente equipada para alimentá-lo pelo seio”. Quando os bebês nascem saudáveis, esta tarefa se torna mais fácil e viável.


Existem aquelas mães que não desejam amamentar, e precisamos respeitá-las, mas existem também situações diversas que impedem ou dificultam a amamentação, como doença materna, bebês separados da mãe, prematuros ou doença. Para essas situações podemos recorrer a ordenha do leite materno ou a fórmula artificial.


“O problema reside no quão adequada e eficaz vem demonstrando ser a alternativa criada e no grau de adesão que elas vem sendo capaz de suscitar na sociedade, apesar dos graves problemas e impactos que pode provocar” (Nunes, 2013, p.20)


A dificuldade está em como o leite artificial e os equipamentos alternativos vem sendo indicados por profissionais e utilizados pelos pais, muitas vezes desnecessária, sem se preocupar com os riscos.

O histórico pode justificar os problemas atuais. Registros arqueológicos já indicavam o uso de meios alternativos de alimentação de bebês como recipientes de barro encontrado ao lado de corpos de lactentes.


Nos séculos XVII e XVIII, amamentar era uma tarefa indigna para as mulheres das classes dominantes, já que não havia a valorização do amor materno. No brasil, os bebês eram entregues a índias ou escravas “amas de leite” para esta tarefa. Porém, um grande número de óbitos infantis começou a ocorrer, decorrente das doenças das amas de leite. As amas foram contraindicadas pela medicina higienista, devolvendo as mães a responsabilidade de nutrir e cuidar de seus filhos. Essa medida reafirmou a amamentação como algo apenas biológico, possibilitando o que apenas na espécie humana pode acontecer, “querer” e “poder amamentar”, já que no mundo animal essa escolha não existe.


Este fato propiciou junto com a industrialização o desenvolvimento da mamadeira e das fórmulas infantis, produzidas em larga escala nos anos 1880. Entretanto não alterou o quadro preocupante de altos índices de mortalidade infantil.


As escolas higienistas francesa e alemã, regulamentavam a amamentação, com recomendações como esvaziamento das mamas, contra indicavam a administração de água com açúcar para os bebês. Porém mesmo com esforço e orientação, algumas mães não conseguiam amamentar seus filhos, aparecendo então a figura do “leite fraco”, como uma desculpa reconhecida, mantendo as mães ilesas do fracasso da amamentação, mesmo sabendo que houveram falhas.


Podemos refletir brevemente nos problemas do uso indiscriminado da mamadeira e das fórmulas infantis.

- A fórmula, ao contrário do leite materno, não oferece ao bebê fatores de proteção contra diversas doenças gastrointestinais e pulmonares por exemplo.

- A falta de condições de higiene básicas para a higiene das mamadeiras, acesso à água de qualidade para a preparação do leite em pó.

- A falta de recursos financeiros para a compra do leite pelo longo período que o bebê precisa receber. Em situações de pobreza, levando a mãe por vezes a diminuir as medidas da fórmula e oferecer um leite diluído ao bebê.

- Alterações no desenvolvimento da musculatura facial.


A intenção do texto não é condenar a utilização da fórmula infantil e da mamadeira, mas discutir o uso indiscriminado e suas consequências e como se desenvolveu historicamente. Em condições adequadas de preparo e higiene, a fórmula é a melhor alternativa de alimentação para os bebês.


Entretanto, a mamadeira não é a primeira e única opção para oferecer o leite materno. Podemos recorrer a utilização de copo, seringa, colheres e sondas.


O que enfrentamos nos dias atuais é decorrente de todo este histórico e da falta de capacitação dos profissionais, levando a orientações inadequadas e a interferência familiar.

O choro do bebê é o principal motivador para que a família incentive a introdução do leite artificial, acreditando que o bebê sempre chora por fome.

Divulgar os benefícios do leite materno, promover o aleitamento, não é suficiente, existem muitos fatores por trás, tornando-se fundamental o apoio as mulheres. Elas precisam ser amparadas e ouvidas.


Não é criminoso oferecer fórmulas e mamadeiras para os bebês, criminoso é não oferecer suporte, apoio e orientação correta a essas mães. Os profissionais precisam se capacitar para entender o momento adequado para a intervenção com os métodos alternativos. A família por sua vez deve apoiar a mãe e confiar nas orientações profissionais, sem pressionar a de forma negativa.


Referência bibliográfica

NUNES, Cristine Nogueira. Amamentação e o design da mamadeira: por uma avaliação da produção industrial, Rio de Janeiro: Reflexão, 2013. 240p.

0 visualização

(14) 9.9801-5897